sexta-feira, 1 de maio de 2015

Como Lázaro se ajustou com um clérigo e do que com ele passou



   Finalmente o clérigo recebeu-me ao seu serviço. (...)
   Possuía ele uma arca fechada, cuja chave trazia presa a um cordão do capote. E, mal chegava da igreja com o pão das oferendas, logo por sua mão a metia na arca, tornando a fechá-la. E em toda a casa não havia nada que comer (...).
   Somente havia uma réstia de cebolas e essa por detrás da fechadura de um quarto nos altos da casa. Delas tinha eu uma por ração para cada quatro dias (...).
   Em conclusão, eu morria de fome.
   Mas, se ele comigo tinha pouca caridade, consigo mesmo era mais pródigo. Cinco reais de carne era quanto costumava comer ao jantar e à ceia. É verdade que repartia comigo o caldo. Que carne era vê-la, pois só me cabia um pouco de pão, e prouvesse a Deus que me chegasse para metade do apetite!
   Aos sábados comem-se nesta terra cabeças de carneiro, ele mandava-me comprar uma, que custava três maravedis. Cozia-a e comia-lhe os olhos, a língua, e o pescoço, e os miolos, e a mim dava-me os ossos roídos. Punha-os no prato dizendo: "Toma lá, come, regala-te, que o mundo é teu. Tens melhor vida que o papa."
   "Igual te dê Deus", dizia eu baixinho para mim.
   Ao fim de três semanas de estadia com ele, caí em tamanha fraqueza que não podia ter-me nas pernas, de pura fome (...)
   E para dissimular a sua grande mesquinhez, dizia-me:
   - Escuta, moço; os sacerdotes devem ser muito comedidos no comer e no beber; e por isto eu não me excedo, como outros.
   Mas o miserável mentia perfidamente, porque nas confrarias e enterros em que rezávamos, à custa alheia comia como um lobo e bebia que nem uma esponja.
   E já que falei em enterros, Deus me perdoe, acrescentarei que nunca fui inimigo do género humano senão naquela época. E isto porque nestas alturas comíamos bem e eu me fartava. Desejava e chegava a rogar a Deus que todos os dias matasse alguém. E quando dávamos os sacramentos aos doentes, em especial a extrema-unção, ao mandar o clérigo rezar todos os presentes, não era eu o último nas orações, e com todo o meu coração e boa vontade pedia ao Senhor, não que se cumprisse o seu desígnio, como é costume dizer-se, mas que levasse o doente deste mundo.
   E quando algum deles escapava, Deus me perdoe, mil vezes o mandava ao Diabo. E o que morria outras tantas bênçãos levava das minhas venturas. Assim, todo o tempo que lá vivi, que seriam quase seis meses, só vinte pessoas faleceram, e estas bem me parece que as matei eu, ou melhor dizendo, morreram por minha intimação. Porque, vendo o Senhor a minha raivosa e contínua morte, penso que gostava de matá-las para me dar a vida a mim. Para o que eu na ocasião padecia é que não achava remédio. Porque se no dia em que enterrávamos alguém eu vivia, nos dias em que não havia morto, por me ter avezado naquela fartura, ao tornar à minha fome quotidiana, sentia-a mais. De modo que em nada encontrava alívio, salvo na morte, que também para mim, como para os outros, algumas vezes a desejava.



Lazarillo de Tormes (novela anónima),
Livraria Civilização Editora




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