quinta-feira, 10 de setembro de 2015

  
JACINTO em PARIS



   Muitas vezes, Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Mas depois conveio esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder jornadear com conforto,  e apontando já com o dedo para as coisas da Civilização. Mas quando ele, em outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. "Estamos aqui tão bem! Está um tempo tão lindo!", murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo pescoço do seu Jacinto; ele sacudia logo Paris, encantado. "Vamos para abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem em flor!" Mas em abril vieram aqueles cansaços que imobilizavam a prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o roupão mais solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então sofrendo de desocupação. As chuvas de março garantiam uma farta colheita (...) Desde o inverno, sentia também no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e, certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. Depois a minha égua morreu... Parti eu para Paris.
   Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202, - decerto por eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores bacânticas nas tranças, se estorcia, segurando numa das mãos uma garrafa de espumante, e brandindo na outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E, oh surpresa!, eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de Saint-Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegância, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:
   - Eh, Fernandes!
   Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202. Com que reconhecimento lhe sacudi a mão fina - por ele me ter reconhecido! E atirando para o canto do vagão um paletó, um maço de jornais que o escudeiro lhe passara - o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:
   - E Jacinto?
   Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia escarranchados no pescoço.
   - Ah que canalha! - exclamou Marizac com os olhos espetados em mim. - É capaz de ser feliz!
   - Espantosamente, loucamente... Qual! Não há advérbios...
   - Indecentemente - murmurou Marizac muito sério. - Que canalha!
   Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os ombros, acendendo a cigarette. (...)
   - Em cinco anos, em Paris, tudo continua... As mulheres com um pouco mais de pós de arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um pouco mais de dispepsia. E tudo segue.


Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (cap. XVI, com supressões)



Campos Elísios

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