quarta-feira, 9 de setembro de 2015


REALIDADE DOLOROSA



Toda a escola se precipitou ruidosamente para o pátio do recreio. Os novos alunos reuniram-se no centro, enquanto os outros se colocavam ao longo dos muros opostos. Começaram a jogar o "apanhar o porquinho". Os veteranos corriam de uma parede para a outra, enquanto os novatos procuravam fugir-lhes: quando um era agarrado e pronunciava as palavras sacramentais - "um, dois, três e um porquinho para mim" - tornava-se prisioneiro e por seu lado ajudava  a agarrar os que estavam ainda livres. Philip viu um rapaz passar correndo e tentou agarrá-lo mas o coxear não ajudou; e os corredores, aproveitando a oportunidade, dirigiram-se para o lugar onde ele estava. Um deles teve então a brilhante ideia de imitar a corrida desajeitada de Philip. Os outros rapazes viram e começaram a rir; logo após todos eles arremedaram o primeiro; e rodearam Philip, coxeando grotescamente, dando estridentes gargalhadas com as suas vozes agudas. Perderam a cabeça no prazer do novo divertimento e sufocavam de alegria irreprimível. Um deles passou uma rasteira a Philip que caiu pesadamente como sempre caía e feriu um joelho. As gargalhadas recrudesceram quando ele se levantou. Um rapaz empurrou-o pelas costas e teria caído novamente se um outro o não tivesse segurado. O jogo fora aquecido com a divertida deformidade de Philip. Um deles inventou um coxear esquisito e bamboleante que batia o outro sumamente ridículo e alguns rapazes atiraram-se ao chão e rebolaram de riso: Philip estava completamente aterrado. Não conseguia compreender porque se riam dele. O coração batia-lhe tanto que mal conseguia respirar e estava assustado como nunca na vida. Ficou de pé, estupidificado, enquanto os rapazes lhe corriam à volta imitando-o e rindo; gritavam-lhe que os apanhasse mas ele não se moveu. Não queria que o vissem correr outra vez. Empregava todas as forças para não chorar.
Subitamente a sineta soou e todos correram para as aulas. O joelho sangrava, e Philip estava sujo e desgadelhado. Durante alguns minutos Mr. Rice não pôde dominar a classe. Estavam ainda excitados com a estranha novidade e Philip viu um ou dois colegas olhando-lhe furtivamente para os pés. Escondeu-os debaixo do banco.
(...)
E sentiu então a miséria da sua vida. Pareceu ao seu espírito infantil que aquele infortúnio não mais teria fim. Sem nenhuma razão especial recordou aquela manhã fria em que Ema o tirara da cama e o pusera junto da mãe. Não pensara mais nisso desde que tal acontecera, mas agora parecia-lhe sentir o calor do corpo da mãe e os braços dela envolvendo-o. De súbito, pareceu-lhe que a sua vida, a morte da mãe, a vida no vicariato e aqueles dois terríveis dias na escola, eram um sonho e que acordaria de manhã e estaria outra vez em casa. As lágrimas iam secando enquanto pensava nisto. Sentia-se tão infeliz que só podia ser um sonho, qua a mãe estava viva e que Ema subiria daí a pouco para ir deitar-se. Adormeceu.
Mas, quando na manhã seguinte acordou, foi ao toque da sineta e a primeira coisa que os seus olhos viram foi a cortina verde do seu compartimento.


Somerset Maugham, Servidão Humana




Somerset Maugham (1874-1965)
De pais ingleses, nasceu em Paris e faleceu em Nice. Ficou órfão aos dez anos e ficou ao cuidado de um tio que o pôs a estudar no King's School, de Canterbury. Estudou medicina e exerceu, abandonando depois esta profissão para se dedicar exclusivamente à escrita.
Obras: A Servidão Humana (uma espécie de autobiografia), Liza de Lamberth, Pontos de Vista, Bolos e Cerveja, O Resumo.

King's School, de Canterbury
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