terça-feira, 8 de setembro de 2015


VIDA DE PRAIA



A concorrência dos banhistas na praia da Granja, cujo movimento pode ser atualmente orçado em cerca de trezentas pessoas, aumenta consideravelmente de ano para ano.
Uma companhia estabeleceu aí um hotel regularmente servido com quartos pelo preço de 1$200 reis, compreendido o serviço.
O clube, para o qual está sendo concluído um edifício especial com um salão para trezentas pessoas, restaurante, cocheiras, etc.,  acha-se estabelecido em uma casa provisória e é muito concorrido. Nele se dançou em muitas noites durante a temporada passada, fizeram-se concertos, e no dia em que ali passámos planeava-se a representação de um provérbio de Musset, uma sessão de quadros vivos extraídos de ilustrações de Gustave Doré, e um passeio à luz dos archotes na floresta.
Os banhistas da Granja conhecem-se todos, apertam-se todos a mão, frequentam as casas uns dos outros, vivem finalmente em família. É tão agradável isto que custa às vezes a suportar.
A gente acaba de chegar e de entrar em casa: calçou as suas chinelas, pôs-se em mangas de camisa, aninhou-se diante da sua mala, está tirando para fora as peúgas, tem as escovas no chão a um lado, os lenços de assoar a outro lado,  as camisas debaixo do braço... Nisto grandes risadas frescas e cristalinas entram como um enxame alegre e canoro: são as amáveis senhoras A... e as encantadoras meninas B..., que souberam da nossa chegada, que vêm fazer-nos uma surpresa, que nos trazem um ramalhete de rosas-chá, que têm uma truta na mesa, que nos esperam para almoçar no prédio ao lado, que aceitam uma garrafa do nosso Chably, que, em suma, começam a fazer-nos a honra de nos receber "em família".
A gente foge para o canto da cama, acalcanha como pode um par de sapatos, enfia à pressa uma jaqueta, ata um lenço no pescoço, corre ao chapéu de palha que está num tabuleiro da mala em cima de uma cadeira, e lança-se na vida "de família" a braços com uma garrafa de Chably e com receio de ter talvez, indiscretamente,  manifestado a cor dos seus suspensórios às amáveis senhoras A... e às encantadoras meninas B...
Depois às senhoras A... e às meninas B... reúne-se a interessante família C... que nos leva a jantar para casa dos hospitaleiros cônjuges D... Pela nossa parte procuramos pagar todas estas obrigações com a amabilidade, com a frase, com a anedota, com o dito, com todas as despesas de conversação, com todas as prodigalidades do espírito.
Todas aquelas pessoas nos retribuem na mesma moeda e são igualmente espirituosas connosco.
À noite estamos todos cansados da graça que tivemos, e mais ainda da graça que fomos obrigados a achar que tinham os outros!
Recolhemo-nos pensando nas meninas A..., que vimos nesse dia sem pó de arroz e que têm sardas quando estão nas praias; nas senhoras B..., que tínhamos por espirituosas nos salões de Lisboa e que são insignificantíssimas no tête-à-tête do campo quando lhes falta para discursar o escândalo do dia, a anedota do baile da véspera, a frase consagrada à crítica do último drama ou à música da última ópera; na interessante família C..., que mete os bicos dos pés para dentro; nos cônjuges D..., dos quais um troca o b pelo v e o outro tem só meia unha em um dos polegares.




Ramalho Ortigão, As Praias de Portugal







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