sexta-feira, 4 de setembro de 2015

BAILE


   Anoitece devagar.


   No terreiro,
   Vão-se os pares
   Ajustando para a dança.


   - Quem é que baila comigo?


   Bailarei eu!,
   Grita uma linda Maria
   De rosto largo e trigueiro.


   E o harmónio,
   Murmurando,
   Dá início ao movimento
   Que é todo ligeiro e brando.


   Agora
   Apertam-se mais
   Os corpos
   Nas voltas lentas e bruscas
   da toada musical.


   Vá de roda, quem mais ama?
   Quem mais quer ao seu benzinho?
   Quem mais ama mais padece;
   Eu hei de amar poucochinho.


   Ao redor do bailarico
   Já se vai juntando gente
   Que andava um pouco dispersa;
   E a minha linda cachopa,
   Balanceada,
   Coleante,
   Parece dada a um sonho...
   - Nem eu sei o que ela sente!


   Paro. Mas o meu braço descansa
   Nas espáduas do meu par.


   A noite cobriu
   De sombras a natureza.
   Ah!, se eu pudesse cantar
   - E dar luz aos corações!


   Fico a pensar e a olhar...


   - Já se acenderam balões!


   Foi aquele moço! Aquele
   Que traz um cravo na boca
   - Escarlate
   Como a cinta
   Com que ele envolve os quadris.


   E a olhá-lo me ponho
   Na graça quente e flexível
   Dos seus aspetos viris.


   Ai, a vida!,
   É tão enganosa e fria,
   Tão outra da que nós temos,
   Que é bem melhor desejá-la
   Como coisa que flutua
   Para lá da que nós vemos...


   Vamos descansar ali...
   Deixemos...
   - Digo ao par que me acompanha.


   E ouvindo a voz do harmónio,
   E contemplando
   Esvaído
   Os pares em desalinho,
   Sinto a mesma sensação
   De ter bebido algum vinho.


António Botto


António Botto (17/8/1897 - 16/3/1959)
Poeta, cronista e dramaturgo português.


Pintura de Renoir
Baile de La Galette, 1876





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