sábado, 19 de setembro de 2015

UM SENTIMENTO BOM


   Subiram os dois a ladeira do Mirante e foram sentar-se no morro.
   - Toma figos - ofereceu Gaitinhas.
   - Eu tenho.
   - Então para que roubavas?
   - Sei lá.
   Gineto não quis confessar que não pedia porque o escorraçavam das portas, chamando-lhe ladrão e vadio. Nunca mais esqueceria a tareia que, há um ano, apanhara das mãos do Sr. Castro. Entrara confiante no jardim: - Pão, por Deus...
   - Toma lá, rapaz...
   E as pancadas deixaram-lhe marcas no corpo, apenas porque apedrejara o caseiro quando fora assaltar a Quinta Alta.
   Talvez por isso, por esse castigo cobarde e tardio, é que ele andava assim a escorraçar os garotos com mais sorte.
   - Gaitinhas: és meu amigo?
   - Sou, pois.
   Gineto sorriu. Nunca tivera um amigo assim. Os outros adulavam-no por medo, bem sabia. A não ser o Sagui, todos lhe queriam mal, embora o respeitassem.
   Gaitinhas tirou do bolso a gaita de beiços e pôs-se a tocar uma canção em voga, que o companheiro ouviu, embevecido. Não percebia nada de música; mas aquela canção era, decerto, a mais bela do mundo. Sumia-lhe as cicatrizes que o pai do Arturinho lhe deixara no corpo e na alma, e levaram-no para braços amigos que jamais conhecera.
   - É bestial, pá! - foi só o que soube dizer quando o Gaitinhas findou.
   Pela ladeira do Mirante, a noite ia descendo, devagar. E, devagar, um sentimento bom despontava no peito do Gineto. O silêncio da tarde convidava a confidências. Contaram-nas. Como velhos amigos, descreveram a história das suas vidas curtas, sem história. Gaitinhas confessou a mágoa de ter renunciado à escola, porque a mãe adoecera.
   - E o teu pai? - perguntou Gineto.
   O filho da Madalena olhou a névoa que ensombrava o horizonte.
   - Está muito longe - murmurou. E a medo, como se revelasse um crime: - Queria que eu fosse doutor.
   A voz do Gaitinhas era de lágrimas cristalizadas. E Gineto teve pena que ser doutor não fosse coisa que se roubasse.
   Na estrada aquosa do Tejo, deslizavam barcos, mansamente. Gaitinhas desejou ser barqueiro para levar um barco ao porto de destino de seu pai. Também Gineto reparou neles, mas lamentou-se:
   - Qualquer dia vou prò mar. O meu pai já disse que me prende no bote...
   - Eu gostava de ir.
   - Pois eu só se nã puder é que nã fujo.
   - E depois?
   - Cá me arranjarei.
   Calaram-se. Barcos, pombas e poente, toda a paisagem daquele fim de tarde, entravam pelos olhos dentro do Gaitinhas, extasiado. Gineto, porém, só via os esteiros longos dos telhais, como dedos de mão arrepanhando águas. Os esteiros e as chaminés esguias das fábricas, que o crepúsculo enegrecia mais.
   - Vamo-nos embora?
   Despediram-se. As pombas recolheram aos ninhos, e os dois amigos também. Só na entrada do rio os barcos deslizavam ainda, a procurar porto de abrigo ou de trabalho.


Soeiro Pereira Gomes, Esteiros
Soeiro Pereira Gomes
(14/4/1909 - 5/12/1949)
Grande escritor neo-realista, militante do Partido Comunista.



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