A PRIMAVERA DE 1431
A primavera de 1431 foi uma das mais frias e húmidas de que rezam as crónicas. O pequeno bando de Rais e La Hire atravessa uma região devastada pela guerra e pela ocupação estrangeira. Não se veem senão casas desmoronadas, cadáveres de cavalos, voos de corvos. De quando em vez, têm que esconder-se para deixar passar um destacamento de ingleses. Quando o inimigo não é muito numeroso, atacam-no, mas nessas ocasiões sempre se sofrem perdas, e as perdas são irreparáveis. Apesar de algumas surtidas vitoriosas, as tropas de Rais e La Hire foram dizimadas. E as defesas de Ruão vêm a revelar-sebastante sólidas. Os homens são obrigados a dispersar, a agir disfarçados. Gil consegue finalmente introduzir-se na cidade, com um único companheiro. Já não era sem tempo: corre o boato de que Joana, condenada à fogueira, será sacrificada ainda durante aquela mesma semana. Ferido e coberto de farrapos, Gil não precisa de se mascarar para passar por vagabundo. Perdido na multidão, assiste, com o coração cheio de dor e ódio, aos preparativos do suplício. Decifra, no alto de um poste hasteado no meio da pira, um letreiro onde se enumeram, os dezasseis crimes de que Joana foi considerada culpada: Joana que a si própria se intitulou a Donzela, mentirosa, perniciosa, envenenadora do povo, adivinha, supersticiosa, blasfema, presunçosa, descrente na Fé, fanfarrona, idólatra, cruel, dissoluta, invocadora dos demónios, apóstata, cismática, herética. Para a meterem a ridículo, enfiaram na cabeça de Joana uma mitra de papelão que lhe descai para o rosto. A pira é demasiado alta para que, ao subir o primeiro fumo, o carrasco a possa estrangular como, por caridade cristã, é seu hábito fazer. Joana terá assim que suportar tormentos desumanos até ao fim. No momento em que a atingem as primeiras chamas, ela grita: Jesus! Jesus! Jesus!, e que esse grito modulado pela dor e pela agonia, repetir-se-á até ao último suspiro.
No fim, o bailio ordena ao carrasco que ponha o corpo de Joana em evidência, para que a ninguém passe despercebido. E vê-se então, suspensa do poste, no meio de um turbilhão de fumo, uma pobre carcaça semicalcinada, uma cabeça calva, de olhos desfeitos, curvada sobre um torso dilatado, ao mesmo tempo que paira na cidade um horrível cheiro a carne carbonizada.
Michel Tournier, Gilles & Jeanne,
Dom Quixote
![]() |
| Joana d'Arc |

Sem comentários:
Enviar um comentário