O SEU DESTINO ERA
O MAR
O MAR
A Maria da Sé ficou viúva, com dois filhos que faziam grande diferença de idade. Um andava na catraia do Manuel Jacinto, mas ao mais pequeno não o deixava ela ir ao mar.
- Não, tu não vais...
Todos os pequenos da Cantareira se juntam nas poças com barquinhos de cortiça. Arranjam uma vela com um farrapo, fazem um leme dum pedaço de casca, e arregaçados, descalços, aprendem a manobrar os barcos com entusiasmo.
- Orça! Orça!
- Ceia agora...
- Olha o meu como bolina!
Se a Maria da Sé o surpreendia com os outros, deitava-lhe as calças abaixo e batia-lhe como uma desalmada.
- Custaste-me muito a criar. Hás de perder o sestro.
Mas ele não perdia o sestro. O mar atraía-o irresistivelmente. Um dia lançou-se a nova catraia ao mar e o irmão interveio:
- Deixe ir o pequeno comigo. Vai ganhando...
- Não vai, já to disse.
Ambos pediam, um falando, o outro agarrado à mão do irmão, com medo à mãe, e não tirando dela os olhos ansiosos.
- Não sei para que vossemecê o está a criar... Vai como moço, ganha um quarto, e nós precisamos, bem o sabe...
- Não!
- Eu sei o que vossemecê pensa. Tolices. Lá por o pai ter morrido na barra não se segue... E eu? Então vossemecê tem-lhe mais amor do que a mim?
- Tu és um homem.
- Deixe-o ir comigo. Na minha salvação que lho trago. Eu respondo por ele.
E o pequeno, de olhos muito abertos, numa ânsia de ir ao mar, como o pai, como os irmãos, como os homens.
- Mãe, deixe-me ir.
Foi. Foi muitas vezes até que lá ficou com a catraia na barra. Oito dias, contados um a um, andou aquela figura vestida de escuro, a correr a costa, a espreitar os areais e os penedos, com os olhos fixos, à espera que o mar lhos restituísse. O mar acaba sempre por vomitar os mortos. Mais dia menos dia, os arrolados vêm à tona e depois à praia.
Apareceram no cabedelo, unidos um ao outro. O mais velho erguia nos braços o mais pequeno procurando salvá-lo. Fui vê-los. Havia naquele grupo de horror uma ternura tão profunda e indestrutível que nem a morte conseguiria separá-los... Ainda tenho diante de mim o moço agarrado aos braços rígidos do irmão, que o levantava para o alto, num derradeiro e desesperado esforço.
Um dia inteiro, cobertos com o lençol branco que o vento sacudia, estiveram arrolados no areal, e, ao lado deles, de joelhos e curvada, falando-lhes baixinho, aquele vulto escuro, que no auge do desespero não tinha uma lágrima para deitar.
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