sexta-feira, 28 de agosto de 2015

NA BARBEARIA DE FIRIPE BERUBERU

   A barbearia do Filipe Beruberu ficava debaixo da grande árvore, no bazar do Maquinino. O teto era a sombra da maçaniqueira *1. Paredes não havia: assim ventava mais fresco na cadeira onde Firipe sentava os clientes. Uma tabuleta no tronco mostrava o custo dos serviços. Estava escrito: "cada cabeça 7$50". Com o creser da vida, Firipe emendou a inscrição: "cada cabeça 20$00."
   Na velha madeira balançava um espelho e, ao lado, amarelecia um cartaz de Elvis Presley. Sobre um caixote, junto ao banco das esperas, sacudia-se um rádio ao sabor do chimandjemandje *2.
   O Firipe capinava as cabeças em voz alta. Conversa de barbeiro, isto-aquilo. Contudo, ele não gostava que a bula-bula*3 amolecesse os fregueses. Quando alguém adormecia na cadeira, o Beruberu aplicava uma taxa no preço final. Até na tabuleta, em baixo dos escritos, acrescentou: "Cabeçada com dormida - mais 5 escudos."
   Mas na sombra generosa da maçaniqueira não havia zanga. O barbeiro distribuía boas disposições, dákámaus*4.  Quem passeasse seus ouvidos por ali só ouvia conversa sorridente. Propaganda do serviço, Firipe não demorava:
   - Estou-vos a dizer: sou mestre dos barbeiros, eu. Podem andar aí, em toda a volta, procurar nos bairros: todos vão dizer que Firipe Beruberu é o maior.
   Alguns clientes toleravam, pacientes. Mas outros lhe provocavam, fingindo contrariar:
   - Boa propaganda, mesire Firipe.
   - Chii, propaganda? Realidade! Se até cabelo fino de branco já cortei.
   - O quê? Não diga que um branco já chegou nesta barbaria...
   - Eu não disse que chegou aqui um branco. Disse que cortei o cabelo dele. E cortei, palavra da minha honra.
   - Explique lá, ó Firipe. Se o branco não chegou até aqui como é que lhe cortou?
   - É que fui chamado lá na casa dele. Cortei dele, cortei dos filhos também. Razão que eles tinham vergonha de sentar aqui, nesta cadeira. Só mais nada.
   - Desculpa, mesire. Mas esse não era branco-mezungo. Era um xikaka*5.
   Firipe fazia cantar a tesoura enquanto a mão esquerda puxava da carteira.
   - Uáa! Vocês? Sempre duvidam, desconfiam. Já mostro prova da verdade.

Mia Couto, Cada Homem é uma Raça,
Caminho

*1 Árvore da maçanica, fruto normalmente designado por maçã-da-Índia.
*2 Ritmo musical, dança.
*3 Conversa fiada.
*4 Apertos de mão.
*5 Colono, português de categoria social dita inferior.

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