segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A DAMA PÉ-DE-CABRA





            Vós os que não credes em bruxas, nem em almas penadas, nem em tropelias de Satanás, assentai-vos aqui ao lar, bem juntos ao pé de mim, e contar-vos-ei a história de D. Diogo Lopes, senhor de Biscaia.
            E não me digam no fim: - “não pode ser.” – Pois eu sei cá inventar cousas destas? Se a conto, é porque a li num livro muito velho. E o autor do livro velho leu-a algures ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral em seus cantares.
            É uma tradição veneranda; e quem descrê das tradições lá irá para onde o pague.
            Juro-vos que, se me negais esta certíssima história, sois dez vezes mais descridos do que S. Tomé antes de ser grande santo. E não sei se eu estarei de ânimo de perdoar-vos como Cristo lhe perdoou.
            Silêncio profundíssimo; porque vou principiar.

            D. Diogo Lopes era um infatigável Monteiro: neves da serra no Inverno, sóis dos estivais no Verão, noites e madrugadas, disso se ria ele.
            Pela manhã cedo de um dia sereno, estava D. Diogo em sua armada, em monte selvoso e agreste, esperando um porco-montês, que, batido pelos caçadores, devia sair naquela assomada.
            Eis senão quando começa a ouvir cantar ao longe: era um lindo, lindo cantar.
            Alevantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre ela estava assentada uma formosa dama: era a dama quem cantava.
            O porco fica desta vez livre e quite; porque D. Diogo Lopes não corre, voa para o penhasco.
            “Quem sois vós, senhora tão gentil; quem sois, que logo me cativaste?”
            “Sou de tão alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis, como tu senhor de Biscaia.”
            “Se já sabeis quem eu seja, ofereço-vos a minha mão, e com ela a minha terra e vassalos.”
            “Guarda as tuas terras, D. Diogo Lopes, que poucas são para seguires tuas montarias; para o desporto e folgança de bom cavaleiro que és. Guarda os teus vassalos, senhor de Biscaia, que poucos são eles para te baterem a caça.”
            “Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu oferecer digno de vós e de mim; que se a vossa beleza é divina, eu sou em toda a Espanha o rico-homem mais abastado?”
            “Rico-homem, rico-homem, o que eu te aceitaria em arras cousa é de pouca valia; mas, apesar disso, não creio que mo concedas; porque é um legado de tua mãe, a rica-dona de Biscaia.”
            “E se eu te amasse mais que a minha mãe, porque não te cederia qualquer dos meus legados?”
            “Então, se queres ver-me sempre ao pé de ti, não jures que farás o que dizes, mas dá-me disso a tua palavra.”
            “A la fé de cavaleiro, não darei uma; darei milhentas palavras.”
            “Pois sabe que para eu ser tua é preciso esqueceres-te de uma cousa que a boa rica-dona te ensinava em pequenino e que, estando para morrer, ainda te recordava.”
            “De quê, de quê, donzela? – acudiu o cavaleiro com os olhos chamejantes. – De nunca dar tréguas à mourisca, nem perdoar aos cães de Mafamede? Sou bom cristão. Guai de ti e de mim, se és dessa raça danada!”
            “Não é isso, bom cavaleiro – interrompeu a donzela a rir. – O de que eu quero que te esqueças é o sinal da cruz: o que eu quero que me prometas é que nunca mais hás-de persignar-te.”
            “Isso agora é outra cousa” – respondeu D. Diogo, que nos folgares e devassidões perdera o caminho do céu. E pôs-se um pouco a cismar.
            E, cismando, dizia consigo: - De que servem benzeduras? Matarei mais duzentos mouros e darei uma herdade a Santiago. Ela por ela. Um presente ao apóstolo e duzentas cabeças de cães de Mafamede valem bem um grosso pecado.
            E erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura, exclamou: -“Seja assim: está dito. Vá, com seiscentos diabos!”
            E, levando a bela dama nos braços, cavalgou na mula em que viera montado.
            Só quando, à noite, no seu castelo, pôde considerar miudamente as formas nuas da airosa dama, notou que os tinha os pés forcados como os de cabra.

Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas



Sem comentários:

Enviar um comentário