segunda-feira, 3 de agosto de 2015

MARCAS

   Quando me lembrei de descrever o episódio da queda na Avenida Casal Ribeiro tinha em mente uma fotografia em que estou com a minha tia Maria Natália, tirada por um fotógrafo à la minuta no Parque Eduardo VII, aonde aos domingos, infalivelmente, iam passear as criadas de servir de todas as casas ricas e os magalas de todos os quartéis de Lisboa. Nessa fotografia, que se perdeu como tantas outras, estava de blusa e calções, com as meias pretas subidas até ao joelho, seguras por um elástico branco. Uma regra fundamental da arte de bem vestir mandava enrolar uma parte do canhão da meia para que não se notassem as ligas, mas, pelos vistos, eu ainda não tinha sido instruído nesses requintados pormenores da vida social. Percebia-se distintamente a crosta de uma ferida no joelho esquerdo, mas esta não era a da Avenida Casal Ribeiro. Aconteceria uns anos mais tarde, na cerca do Liceu Gil Vicente, e foi tratada no posto médico. Puseram-me o que então se chamava um "gato", um pedacinho de chapa metálica, mais ou menos em forma de pinça, que se cravava nos bordos da ferida para os juntar, e, pelo contacto, apressar a cicatrização. A marca manteve-se visível durante muitos anos, e mesmo agora ainda se podem distinguir uns ténues vestígios dela. Outra cicatriz que conservo é a da fina linha de um corte de navalha, um dia lá no Mouchão de Baixo, quando talhava um barco num pedaço de cortiça. Espetava a ponta da lâmina para arrancar pedaços da corcha ao que viria a ser o interior da embarcação, quando, de repente, por fraqueza da mola, a navalha se fechou e o gume abriu caminho naquilo que encontrou à sua frente, a parte exterior do dedo indicador da mão direita, ao lado da unha. Por pouco não me levou adiante uma lasca de carne. Fui curado com um dos remédios milagrosos daquela época, álcool com balsamina. A ferida não infetou e cicatrizou perfeitamente. A tia Maria Elvira dizia que eu era de boa carnadura.

José Saramago, As Pequenas Memórias,
 Caminho

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