A DAMA PÉ-DE-CABRA
(continuação)
(continuação)
Dirá agora alguém: - Era, por certo,
o Demónio que entrou em casa de D. Diogo Lopes. O que lá não iria! – Pois sabei
que não ia nada.
Por anos, a dama e o cavaleiro
viveram em boa paz e união. Dous argumentos vivos havia disso: Ínigo Guerra e
Dona Sol, enlevo ambos de seu pai.
Um dia de tarde, D. Diogo voltou de
montear: trazia um javali grande, muito grande. A mesa estava posta. Mandou
conduzi-lo ao aposento, onde comia, para se regalar de ver a excelente preia
que havia preado.
Seu filho assentou-se ao pé dele: ao
pé da mãe, Dona Sol; e coçaram alegremente seu jantar.
“Boa montaria, D. Diogo – dizia sua
mulher. – Foi uma boa e limpa caçada.”
“Pelas tripas de Judas! – respondeu
o barão. – Que há bem cinco anos não colho urso ou porco-montês que este
valha!”
Depois, enchendo de vinho o seu
pichel de prata mui rico e lavrado, virou-se de golpe à saúde de todos os
ricos-homens fragueiros e monteadores.
E a comer e a beber durou até à
noite o jantar.
Ora deveis de saber que o senhor de
Biscaia tinha um alão a quem muito queria, raivoso no travar das feras, manso
com seu dono e, até, com os servos da casa.
A nobre mulher de D. Diogo tinha uma
podenga preta como azeviche, esperta e ligeira que mais não havia dizer, e dela
não menos prezada.
O alão estava gravemente assentado
no chão defronte de D. Diogo Lopes, com as largas orelhas pendentes e os olhos
semi-cerrados, como quem dormitava.
A podenga negra, essa corria pelo aposento,
viva e inquieta, pulando como um diabrete: o pêlo liso e macio reluzia-lhe com
um reflexo avermelhado.
O barão, depois da saúde urbi et orbi feita aos monteiros,
esgotava um kírie comprido de saúdes particulares, e a cada nome uma taça.
Estava como cumpria a um rico-homem
ilustre, que nada mais tinha que fazer neste mundo, senão dormir, beber, comer
e caçar.
E o alão cabeceava, como um abade
velho em seu coro, e a podenga saltava.
O senhor de Biscaia pegou então de
um pedaço de osso com sua carne e medula e, atirando-o ao alão, gritou-lhe: -
“Silvano, toma lá tu, que és fragueiro: leve o diabo a podenga, que não sabe
senão correr e retouçar.”
O cãozarrão abriu os olhos, rosnou,
pôs a pata sobre o osso e, abrindo a boca, mostrou os dentes anavalhados. Era
como um rir deslavado.
Mas logo soltou um uivo e caiu,
perneando meio-morto: a podenga, de um pulo, lhe saltara à garganta, e o alão
agonizava.
“Pelas barbas de D. From, meu
bisavô! – exclamou D. Diogo, pondo-se em pé, trémulo de cólera e de vinho. – A
perra maldita matou-me o melhor alão da matilha; mas juro que hei-de escorchá-la.”
E, virando com o pé o cão moribundo,
mirava as largas feridas do pobre animal, que expirava.
“À la fé que nunca tal vi! Virgem
bendita! Aqui anda coisa de Belzebu.” – E dizendo e fazendo, benzia-se e persignava-se.
“Ui” – gritou sua mulher, como se a
houveram queimado. O barão olhou para ela: viu-a com os olhos brilhantes, as
faces negras, a boca torcida e os cabelos eriçados.
E ia-se alevantando, alevantando no
ar, com a pobre Dona Sol sobraçada debaixo do braço esquerdo; o direito
estendia-o por cima da mesa para seu filho, D. Ínigo de Biscaia.
E aquele braço crescia, alongando-se
para o mesquinho, que, de medo, não ousava bulir nem falar.
E a mão da dama era preta e luzidia,
como o pêlo da podenga, e as unhas tinham-se-lhe estendido bem meio palmo e
recurvado em garras.
“Jesus, santo nome de Deus!” –
bradou D. Diogo, a quem o terror dissipara as fumaças do vinho. E, travando de
seu filho com a esquerda, fez no ar com a direita, uma e outra vez, o sinal da
cruz.
E sua mulher deu um grande gemido e
largou o braço de Ínigo Guerra, que já tinha seguro, e, continuando a subir ao
alto, saiu por uma grande fresta, levando a filhinha que muito chorava.
Desde
esse dia não houve saber mais nem da mãe nem da filha.A podenga negra, essa
sumiu-se por tal arte, que ninguém no castelo lhe tornou a pôr a vista em cima.
D.
Diogo Lopes viveu muito tempo triste e aborrido porque já não se atrevia a
montear. Lembrou-se, porém, um dia de espairecer sua tristura, e, em vez de ir
à caça dos cerdos, ursos e zebras, sair à caça de mouros.
Mandou,
pois, alevantar o pendão, desenferrujar e polir a caldeira, e provar seus
arneses. Entregou a Ínigo Guerra, que já era mancebo e cavaleiro, o governo de
seus castelos, e partiu com lustrosa mesnada de homens d’armas para a hoste
d’el-rei Ramiro, que ia em fossado contra a mourisca de Espanha.
Por
muito tempo não houve dele, em Biscaia, nem novas nem mensageiros.
Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas
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