quarta-feira, 12 de agosto de 2015

 A DAMA PÉ-DE-CABRA
(continuação)



            Dirá agora alguém: - Era, por certo, o Demónio que entrou em casa de D. Diogo Lopes. O que lá não iria! – Pois sabei que não ia nada.
            Por anos, a dama e o cavaleiro viveram em boa paz e união. Dous argumentos vivos havia disso: Ínigo Guerra e Dona Sol, enlevo ambos de seu pai.
            Um dia de tarde, D. Diogo voltou de montear: trazia um javali grande, muito grande. A mesa estava posta. Mandou conduzi-lo ao aposento, onde comia, para se regalar de ver a excelente preia que havia preado.
            Seu filho assentou-se ao pé dele: ao pé da mãe, Dona Sol; e coçaram alegremente seu jantar.
            “Boa montaria, D. Diogo – dizia sua mulher. – Foi uma boa e limpa caçada.”
            “Pelas tripas de Judas! – respondeu o barão. – Que há bem cinco anos não colho urso ou porco-montês que este valha!”
            Depois, enchendo de vinho o seu pichel de prata mui rico e lavrado, virou-se de golpe à saúde de todos os ricos-homens fragueiros e monteadores.
            E a comer e a beber durou até à noite o jantar.

            Ora deveis de saber que o senhor de Biscaia tinha um alão a quem muito queria, raivoso no travar das feras, manso com seu dono e, até, com os servos da casa.
            A nobre mulher de D. Diogo tinha uma podenga preta como azeviche, esperta e ligeira que mais não havia dizer, e dela não menos prezada.
            O alão estava gravemente assentado no chão defronte de D. Diogo Lopes, com as largas orelhas pendentes e os olhos semi-cerrados, como quem dormitava.
             A podenga negra, essa corria pelo aposento, viva e inquieta, pulando como um diabrete: o pêlo liso e macio reluzia-lhe com um reflexo avermelhado.
            O barão, depois da saúde urbi et orbi feita aos monteiros, esgotava um kírie comprido de saúdes particulares, e a cada nome uma taça.
            Estava como cumpria a um rico-homem ilustre, que nada mais tinha que fazer neste mundo, senão dormir, beber, comer e caçar.
            E o alão cabeceava, como um abade velho em seu coro, e a podenga saltava.
            O senhor de Biscaia pegou então de um pedaço de osso com sua carne e medula e, atirando-o ao alão, gritou-lhe: - “Silvano, toma lá tu, que és fragueiro: leve o diabo a podenga, que não sabe senão correr e retouçar.”
            O cãozarrão abriu os olhos, rosnou, pôs a pata sobre o osso e, abrindo a boca, mostrou os dentes anavalhados. Era como um rir deslavado.
            Mas logo soltou um uivo e caiu, perneando meio-morto: a podenga, de um pulo, lhe saltara à garganta, e o alão agonizava.
            “Pelas barbas de D. From, meu bisavô! – exclamou D. Diogo, pondo-se em pé, trémulo de cólera e de vinho. – A perra maldita matou-me o melhor alão da matilha; mas juro que hei-de escorchá-la.”
            E, virando com o pé o cão moribundo, mirava as largas feridas do pobre animal, que expirava.
            “À la fé que nunca tal vi! Virgem bendita! Aqui anda coisa de Belzebu.” – E dizendo e fazendo, benzia-se e persignava-se.
            “Ui” – gritou sua mulher, como se a houveram queimado. O barão olhou para ela: viu-a com os olhos brilhantes, as faces negras, a boca torcida e os cabelos eriçados.
            E ia-se alevantando, alevantando no ar, com a pobre Dona Sol sobraçada debaixo do braço esquerdo; o direito estendia-o por cima da mesa para seu filho, D. Ínigo de Biscaia.
            E aquele braço crescia, alongando-se para o mesquinho, que, de medo, não ousava bulir nem falar.
            E a mão da dama era preta e luzidia, como o pêlo da podenga, e as unhas tinham-se-lhe estendido bem meio palmo e recurvado em garras.
            “Jesus, santo nome de Deus!” – bradou D. Diogo, a quem o terror dissipara as fumaças do vinho. E, travando de seu filho com a esquerda, fez no ar com a direita, uma e outra vez, o sinal da cruz.
            E sua mulher deu um grande gemido e largou o braço de Ínigo Guerra, que já tinha seguro, e, continuando a subir ao alto, saiu por uma grande fresta, levando a filhinha que muito chorava.
Desde esse dia não houve saber mais nem da mãe nem da filha.A podenga negra, essa sumiu-se por tal arte, que ninguém no castelo lhe tornou a pôr a vista em cima.
D. Diogo Lopes viveu muito tempo triste e aborrido porque já não se atrevia a montear. Lembrou-se, porém, um dia de espairecer sua tristura, e, em vez de ir à caça dos cerdos, ursos e zebras, sair à caça de mouros.
Mandou, pois, alevantar o pendão, desenferrujar e polir a caldeira, e provar seus arneses. Entregou a Ínigo Guerra, que já era mancebo e cavaleiro, o governo de seus castelos, e partiu com lustrosa mesnada de homens d’armas para a hoste d’el-rei Ramiro, que ia em fossado contra a mourisca de Espanha.
Por muito tempo não houve dele, em Biscaia, nem novas nem mensageiros.

Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas

 

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