CALA A BOCA, URSO!
O elevador pusera-se, há muito, em movimento com estardalhaço vagaroso e os dois duelistas precisavam agora de gritar mais, de apregoar quase, para se ouvirem, num esganiçar de ódios inúteis:
- Até lhe comia os fígados, seu malandro! Os fígados, ouviu?
Mas não, não comia e era pena. Que bom, se aquele senhor de bigodinho irritado começasse a devorar, ali mesmo diante de toda a gente, o fígado cru do rival, em vez daquele duelo absurdo... nas nuvens da prudência... só sons de chanfalhos sem lâminas... só murros de imaginação... só dentadas metafísicas...
A viagem aproximava-se do fim, e os adversários, embora continuassem a a tirar epítetos à cara um do outro, mal conseguiam destrinçar-lhes um sentido qualquer, em virtude do estridor das rodas.
Foi então que aconteceu o inevitável.
Ouviu-se o grito:
- Cala a boca, urso!
O eterno grito anónimo, gaiato e lisboeta que ora sai das bocas das pedras das ruas, ora das bancadas do coliseu, ora das estrelas.
Desta vez, incendiou a voz dum rapazola, loiraço e picado das bexigas, que mal se podia mexer, atabafado na plataforma traseira.
- Cala a boca, urso!
O homúnculo de olhos assomadiços, voltou-se num repelão de rancor sacudido:
- Quem foi a grandessíssima cavalgadura que relinchou, para eu lhe amolgar os focinhos?
Emudecimento geral, resposta, nem uma nem duas. O próprio loiraço, de olhos tão desafiantes, deixou-se escorregar para o alçapão do silêncio.
E, então, o elevador parou. Os passageiros começaram a sair.
Primeiro este... depois aquele... em suma, depressa esquecidos dos dois galos de esporões teóricos.
O bexigoso loiro foi o último a descer, mas vissem-no agora, já diferente, já herói, já desmedido de audácia, já pimpão, a rosnar em confidência para um amigo:
- Os camelos só têm paleio e mais nada... Se fosse comigo, dava-lhe uma chulipa que até voavam.
E, heróico até ao paroxismo, pregou um pontapé no rabo do vento!
José Gomes Ferreira, O Mundo dos Outros
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