quarta-feira, 26 de agosto de 2015

AS EMOÇÕES E O RACIOCÍNIO

   É bem sabido que, sob certas circunstâncias, as emoções perturbam o raciocínio. As provas disso são abundantes e estão na origem dos bons conselhos com que temos sido educados. Mantém a cabeça fria, mantém as emoções ao largo! Não deixes que as paixões interfiram no bom juízo. Em resultado disso, concebemos habitualmente as emoções como uma faculdade mental supranumerária, um parceiro do nosso pensamento racional que é dispensável e imposto pela natureza. Se a emoção é aprazível, fruímo-la como um luxo, se é dolorosa, sofremo-la como um intruso indesejado. Em qualquer dos casos, o conselho dos sábios será o de que devemos experienciar as emoções e os sentimentos apenas em quantidades adequadas. Devemos ser razoáveis.
   Há muito boa sabedoria nesta crença tão aceite, e não vou negar que as emoções não controladas e mal orientadas podem constituir uma das principais origens do comportamento irracional. Tão pouco negarei que o raciocínio que é à partida normal pode ser perturbado por inflexões subtis enraizadas nas emoções.. Por exemplo, é mais provável que um doente aceite de bom grado um tratamento se lhe disserem que 90% das pessoas tratadas em casos semelhantes se encontram vivas ao fim de cinco anos do que se for informado de que 10% morreram. Embora o resultado final seja o mesmo, é natural que os sentimentos que surgem associados à morte conduzam à rejeição de uma opção que seria aceite no outro enquadramento de escolha: eis um exemplo acabado de uma interferência irracional. O facto de esta irracionalidade não resultar da ausência de conhecimento pode ser testado pelo facto de se os doentes fossem médicos não responderiam de forma diferente dos doentes que não são. Todavia, o que é ignorado é que a redução das emoções pode constituir uma fonte igualmente importante do comportamento irracional.

António R. Damásio, O Erro de Descartes:emoção, razão e cérebro humano
Publicações Europa-América

 

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