terça-feira, 18 de agosto de 2015

AS CONSULTAS

   Saía extenuado dessas consultas, em que as explosões de choro, que nem os homens poupavam, se alternavam com a euforia e o riso. Eles forçavam-me tanto a ser cúmplice da sua ansiedade, ou viam-me tão responsável por ela, que acabavam em ter por mim uma devoção aterrorizada ou, quem sabe, o ódio que segura o cão maltratado ao dono que tem numa das mãos  o chicote e com a outra lhe estende um osso.
   Havia ainda outra fauna. Hipocondríacos, exibicionistas, gente dessa. Gente difícil. Tinham ouvido falar de doenças irremediáveis, de um macabro romantismo, e queriam, à viva força. ser os heróis de um drama. [...]
   Eu chegara, com um atraso desusado, ao hospital. Na véspera, a atmosfera estivera saturada, de um azul indeciso e opressivo, que parecia neblina sem o ser, e que, ao apanhar-nos os brônquios, aí ficava atufada, sufocando. A testa latejara-me mesmo pela noite dentro, enquanto os sentidos, em vigília, esperavam uma tempestade, fosse o que fosse de brutal e súbito mas aliviador. Nada disso, contudo, sucedera. Apenas uma ventania lamentosa e vagabunda. E levantara-me mais cedo do que era meu hábito, o cérebro pesado, uma bruma entre mim e a atmosfera ainda violenta, mas de uma violência já gasta e definitivamente abortada.

Fernando Namora, Domingo à Tarde,
Livraria Bertrand

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