sábado, 18 de abril de 2015


UMA CARTA DE AMOR

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   Preenche impressos a cinquenta escudos, escreve cartas a setenta e os analfabetos são o seu mercado. Mas, principalmente, preenche impressos,, postado que está na posição fronteira ao Arquivo de Identificação, onde mesmo os analfabetos têm de ter uma identidade e um cartão que a prove, com um número, uma cara e uma impressão digital.
   As cartas são menos frequentes, mas todos os dias tem pelo menos uma que escrever, o que faz sem emendas e em silêncio, após alguns minutos de conversa com o remetente para conhecer o conteúdo e o destinatário.
   (...)
   No outro dia teve um sobressalto. Pediram-lhe para escrever uma carta de amor. Não lhe pediram assim. Foi um freguês, um homem ainda novo, de pele escura, com um endereço e código postal para o Sul que lhe disse:
   - Tenho uma carta para vossemecê escrever. Quanto é?
   - Setenta escudos até duas páginas. O que é que quer dizer na carta?
   ~É para uma rapariga. Não quero dizer nada de especial. Não tenho nada para dizer. Quero só mandar-lhe dizer que gosto dela e penso nela todos os dias. Pode ser?
   Sorriu, olhando demoradamente a cara morena que tinha à sua frente e que o olhava com ansiedade, e respondeu:
   - Volte daqui a uma hora que já deve estar pronta. Vamos ver se sou capaz.
   Depois agarrou num velho bloco cujas páginas já iam em metade e tirou uma velha caneta de tinta permanente da pasta, guardando a esferográfica que usava nos impressos e pôs-se à escrita começando: "Meu amor". Escreveu uma página e outra e outra, dos dois lados das folhas, até a caligrafia saía diferente, com letra menos inclinada e mais arredondada até acabar"... custa-me viver assim, longe de ti, a pensar no que estarás a fazer a cada momento. Não me sais do pensamento. Quando estivermos juntos não nos separaremos mais. Amo-te."
   Quando o rapaz voltou, perguntou-lhe o nome e assinou a carta. Escreveu cuidadosamente o envelope, com destinatária e remetente, e entregou-lho, sem o fechar, com um sorriso feliz:
   - Pronto. Meta no correio. A mim, você não deve nada.
   E quem por ali estivesse a observá-lo, na sua camisola de lã, as mãos delicadas repousando na prancheta de cartão verde garrafa, sobre os joelhos dobrados pela posição no banco de lona articulado, descobrir-lhe-ia, na cara quase sem expressão, e nos olhos aparentemente desinteressados, um sorriso e um brilho que, sendo quase indecifráveis, se poderia apostar que era de felicidade.





Joaquim Letria, in Jornal de Notícias, 17/08/1986





Joaquim José da Conceição Letria (8/11/1943)


Desde muito novo se interessou pela área do jornalismo. Jornalista português, começou a trabalhar no Diário de Lisboa, fez rádio, televisão, diretor e colaborador de revistas, de agências de informação e professor universitário. Fundou os jornais O Jornal e o Tal & Qual.
Em 1998 foi publicado o seu livro A Verdade Confiscada. Escândalo - A Armadilha da Nova Censura.

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