quarta-feira, 22 de abril de 2015


O AMOR  



   O amor é uma coisa que há em Coimbra quando os estudantes tocam guitarra e passeiam com umas coisas que lá há e que são chamadas tricanas mas depois os estudantes acabam os exames e vêm para Lisboa e não pensam mais no amor e casam eu sei estas coisas porque oiço o rádio da vizinha que está sempre a tocar muito alto mas não conheço ninguém que tivesse tocado guitarra em Coimbra e por isso não sei muito bem o que é o amor e a que sabe mas sei outras coisas porque sou de olhão como diz a minha professora que é a D. Eugénia e sei que lá fora no estrangeiro não há isso que se chama amor porque a Vovó está sempre a dizer que em França não sabem fazer nada senão indecências e é por isso penso eu que o nosso  País é tão diferente dos outros como diz um primo que antes se chamava José e que depois foi para França trabalhar numa obra e agora é Joseph (...) que diz que Portugal só para vacances (...) mas o primo que agora é Joseph já tem carro pago e diz que lá come bifes que lá se chamam biftecks e não quer voltar e o meu Pai diz que se não fosse o amor que tem à nossa terra também fazia as malas e ia para França ou para a Alemanha e é por isso que eu acho que o amor também é uma coisa que faz com que os pais não tenham carro e que a gente só coma bifes uma vez por ano e é um pau mas o amor também se põe nas cartas porque a Vovó tem um pacote de cartas atadas com uma fita desbotada que era azul e diz que são cartas de amor do Vovô e por isso eu penso que são cartas que ele escreveu às tais coisas que se chamam tricanas e que eu não sei talvez sejam pessoas e talvez não sejam mas a Vovó não me deixa vê-las o que é uma pena porque eu aprendia muito (...)




Luís de Sttau Monteiro, Redações da Guidinha,
 Areal Editores





LUÍS DE STTAU MONTEIRO (3/4/1926 - 23/7/1993)
Natural de Lisboa, residiu durante a sua juventude na Inglaterra. Formou-se em Direito, mas foi breve a sua passagem pela advocacia. jornalista e colaborador de televisão, escreveu algumas peças de teatro, como Felizmente há Luar!, Todos os Anos pela Primavera, O Barão, Auto da Barca do Motor Fora de Borda, A Guerra Santa e As Mãos de Abraão Zacute;  a novela Um Homem não Chora e o romance Angústia para o Jantar (1961). Colaborou em jornais e tinha uma coluna que se intitulava Redações da Guidinha.


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