CONTRABANDISTAS
Quando os homens partiram da vila, em grupos separados, disfarçando o seu propósito por atalhos, ainda a noite se escondia na espessura das nuvens. Chegariam, dia claro, perto do rio Erges e aí deviam aguardar novamente a cumplicidade das trevas. Arriscavam-se vinte e seis cargas de estanho, distribuídas por trinta homens de alugo; mesmo assim, cabia a todos um peso que vergava bem os costados; apesar de as mãos se arroxearem de frio, as camisas colavam-se ao suor dos músculos. Iam distanciados uns dos outros, numa fila sinuosa, por vezes interrompida nas ravinas e nas gargantas dos ribeiros. O nevoeiro cortejava a coroa das serras paralelas à raia, esbatendo-se sobre a planície enregada de alqueives, para encordoar de novo junto à vila.
As cargas de estanho seriam negociadas na mina espanhola de Pelares del Puerto, e os homens, no regresso, teriam de alombar com fardos de fazenda. Se as coisas se arrumassem sem fugas e sem tiros, o esforço dobrado de um par de noites valia um mês de enxada nas herdades.
Os pés iam ficando encortiçados, as horas aproximavam a alvorada, o vento, às vezes, rasgava estradas no céu escuro; a marcha abrandava de entusiasmo. O Pencas ia no grupo da frente e foi percebendo o companheiro da retaguarda a encurtar rapidamente a distância entre ambos: ainda quis aceitar o desafio desse passo vigoroso, mas parou, exausto, a resfolegar. O outro, com o suor morno e salgado a escorrer-lhe para a boca, disse:
- Arreaste. Pesam-te as banhas...
- Vomecê vai com um nervo...
- Tens o corpo lambão, é o que é.
O contrabandista estendeu os braços sobre os joelhos, com a carga poisada no chão. O seu ouvido apurado escutou os passos dos companheiros.
- Vamos, Pencas, senão perdemo-nos dos camaradas.
- Tenho uma sede danada.
- Isto não é brincadeira pra conversas de taberna. Avia-te aí à minha frente.
Pencas respondeu qualquer coisa que a posição do queixo, descaído, não deixou que fosse nítida. Ergueu-se, pesadão, e continuou a marcha com as pernas adormentadas de fadiga.
Uma levíssima claridade foi abrindo o horizonte. O Pencas, com umas calças de cotim claro ou deslavado dos anos, sobressaía entre os troncos imóveis e bojudos dos carvalhos. O Camarão deu por isso; caminhavam agora lado a lado e não se distinguia qualquer rumor do companheiro da frente. Essa brancura do tecido das calças feria-lhe os olhos.
- Pareces um espantalho, garoto. Talvez a farpela te saia cara.
Pencas não ouviu a frase inteira, abafado como ia pelo suor e pela carga, e levou tempo a entender o significado das palavras; mas, subitamente, teve a intuição de que o avisavam de perigos imprevistos, e o desamparo da serra correu-lhe, gelado, pelos nervos.
- Que disse vomecê?
- Que pareces um espantalho desmaiado.. Anda, mexe-te. Qualquer espingarda enxerga ao longe as tuas calças.
Pencas, os olhos saídos das pálpebras balofas, interrompeu a marcha: o medo varava-o e isso não devia pasmar ninguém. Iam todos sujeitos a uma bala no corpo. Mas quem tinha calo no ofício esquecia essas coisas. Metera-se no negócio arrastado pelas lérias do Camarão; ainda sentia os ossos desmanchados dos percalços do dia anterior e não podia ter havido ideia mais safada do que atirar-se a um par de léguas sem um prévio repouso que lhe retemperasse as forças. pior do que o medo, era esse cansaço irresistível: um ópio pesado e suave que vinha por cima de todos os perigos. Só a esperança de ganhar dinheiro graúdo o convencera a esfalfar-se por estes caminhos; mas se a jornada não tivesse um fim, dentro de meia hora deixaria o corpo estender-se à vontade, viesse quem viesse.
Fernando Namora, A Noite e a Madrugada
FERNANDO GONÇALVES NAMORA (1919-1989)
Nasceu em Condeixa (zona de Coimbra). Formado em Medicina, exerceu clínica na sua terra natal e também na Beira Baixa, no Alentejo e em Lisboa, onde trabalhou no Instituto de Oncologia. Tirou partido da sua experiência profissional para escrever obras como Retalhos da Vida de um Médico e Domingo à Tarde (1961). Escreveu poemas e nos seus romances manteve sempre uma tendência neo-realista.
Algumas obras: Relevos, Mar de Sargaços, As Sete Partidas do Mundo, Minas de S. Francisco, O Trigo e o Joio, Os Clandestinos...
| Contrabandistas da Raia |
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