CANÇÃO
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei, quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Cecília Meireles, in Viagem
CECÍLIA MEIRELES (1901-1964)
Nasceu e morreu no Rio de Janeiro. Seguiu a carreira do Magistério.
Em 1934, fundou a primeira biblioteca infantil no Brasil e, nesse mesmo ano, visitou Portugal.
Ensinou na Universidade no Brasil e nos Estados Unidos da América, no Texas.
É considerada o maior nome da poesia feminina brasileira.
Alguns títulos da sua produção literária: Espectros (Sonetos, 1919), Viagem (1939), Mar Absoluto (1945), O Aeronauta (1952), Espelho Cego (1955), Solombra (1963.
| William Turner, O Navio Negreiro |
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