segunda-feira, 20 de abril de 2015

A LINGUAGEM DO AMOR

  29 - Outubro (quinta). E aí está. Acabei de escrever a "Carta a Sandra". Mas pude verificar alguns embaraços com que não contava inteiramente. Assim, pois, escrever um volume com tais cartas é uma proeza extremamente difícil. Antes de mais pude confirmar o «ridículo» delas, porque é extremamente apertado o seu campo de manobra. O amor como decerto todo o sentir é muito curto de vocabulário. De modo que se esgota rapidamente e um simples bilhete já é de mais. Mas o ridículo tem que ver também com o intruso que as ler. Porque os interessados não sentem ridículo nenhum, fechados no vocabulário como num cobertor. Mas a grande dificuldade vem de que uma emoção é para se sentir e não para se dizer . Experimente-se ouvir uma música emocionante e falar depois dela.  Não vai. Sublime, deliciosa, original, maravilhosa e por aí. Os técnicos lá desanicham razões especializadas para dizer bem ou mal. Mas tudo isso fica atrás ou de fora, como os gestos do amor são laterais ao amar-se. Que é que pode dizer-se por ex. da imagem da amada? Só coisas chilras e piegas. Doce, suave, etc. Mas é isso que tem de se dizer, se se quer dizer alguma coisa. Como estou possuído do imaginário de Sandra, julguei que era só espremer isso em palavras. Espremem-se coisas detestáveis. Nem sequer é fácil ou talvez possível meter na conversa uma ideia original, um modo original de ver e dizer o banal que se vê. Porque toca logo a quebrado. Mas como raio se há de escrever uma carta de amor senão usando a linguagem do amor? Acabou-se, escrevi a «Carta a Sandra».

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente IV (nova série), 1992

VERGÍLIO FERREIRA
(1916-1996)

Nasceu em Melo, na Serra da Estrela, Portugal.
Escreveu 22 obras de ficção, vários ensaios e um diário Conta-Corrente. Um dos seus livros mais conhecidos é Aparição.
Este texto refere-se à última obra que o autor escreveu, Cartas a Sandra, e que não chegou a ver publicada.

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