A MENOS INÓCUA DAS PALAVRAS
Nunca o Silvestre tinha tido uma pega com ninguém. Se às vezes guerreava, com palavras azedas para cá e para lá, era apenas com os fundos da própria consciência.
Ora um domingo, o Silvestre ensarilhou-se, sem querer, numa disputa colérica com o Ramos da loja. Fora o caso que ao falar-se, no correr da conversa, em trabalhadores e salários, Silvestre deixou cair que, no seu entender, dada a carestia da vida, o trabalho de um homem de enxada não era de forma alguma bem pago. Mas disse-o sem um desejo de discórdia, facilmente, abertamente, com a mesma fatalidade clara de quem inspira e expira. Todavia o Ramos, ferido de espora, atacou de cabeça baixa:
- Que autoridade tem você para falar? Quem lhe encomendou o sermão?
- Homem! - clamava o Silvestre, de mão pacífica no ar. Calma aí se faz favor. Falei por falar.
- E a dar-lhe! Burro sou eu em ligar-lhe importância. Sabe lá você o que é a vida, sabe lá nada. Não tem filhos em casa, não tem quebreiras de cabeça. Assim, também eu.
- Faço o que posso - desabafou o outro.
- E eu a ligar-lhe. Realmente você é um pobre diabo, Silvestre. Quem é parvo é quem o ouve. Você é um bom, afinal. Anda no mundo por ver andar os outros. Quem é você, Silvestre amigo? Um inócuo, no fim de contas. Um inócuo é o que você é!
Silvestre já se dispusera a ouvir tudo com resignação. Mas, à palavra "inócuo", estranha ao seu ouvido montanhês, tremeu. E à cautela, não o codilhassem por parvo, disse:
- Inoque será você.
Também o Ramos não via o fundo ao significado de "inócuo". Topara por acaso a palavra, num diálogo aceso de folhetim, e gostara logo dela, por aquele sabor redondo a moca grossa de ferros, cravada de puas. Dois homens que assistiram ao barulho partiram logo dali, com o vocábulo ainda quente da refrega, a comunicá-lo à freguesia.
- Chamou-lhe tudo, o patife. Só porque o pobre entendia que a jorna de um homem é fraca. Que era um paz-de-alma. E um inoque.
- Que é isso de inoque?
- Coisa boa não é. Queria ele dizer na sua que o Silvestre não trabalhava, que era um lombeiro, um vadio.
Como nesse dia, que era domingo, Paulino entrara em casa com a bebedeira do seu descanso, a mulher praguejou, como estava previsto, e cobriu o homem de insultos como não estava inteiramente previsto:
- Seu bêbedo ordinário. Seu inoque reles.
Quando a palavra caiu da boca da mulher, vinha já tinta de carrascão. E desde aí, inoque significou, como é de ver, vadio e bêbedo.
Como, porém, as desgraças do povo pediam cada dia termos novos para se exprimirem, "inócuo" foi inchando de mais significações.
Vergílio Ferreira, Contos,
Bertrand (com supressões)
Bertrand (com supressões)
| Vergílio Ferreira |
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