VOLTAR A TORMES
Ao fim desse inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava na cama, sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pálido um bafo de primavera ainda tímido - Jacinto assomou à porta do meu quarto, revestido de flanelas leves, de uma alvura de açucena. Parou lentamente à beira dos colchões, e, com gravidade, como se anunciasse o seu casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração formidável:
- Zé Fernandes, vou partir para Tormes.
O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau-preto do velho "D. Galeão".
- Para Tormes? Oh Jacinto, quem assassinaste?...
Deleitado com a minha emoção, o Príncipe da Grã-Ventura tirou da algibeira uma carta, e encetou estas linhas, já decerto relidas, fundamente estudadas:
- "Ilmo. e Exmo Sr. - Tenho grande satisfação em comunicar a V. Exª que por toda a semana devem ficar prontas as obras da capela..."
- É do Silvério - exclamei.
- É do Silvério, "...as obras da capela nova. Os venerandos restos dos excelsos avós de V. Exª, senhores de todo o meu respeito, podem pois ser em breve trasladados da Igreja de S. José, onde têm estado depositados por bondade do nosso abade, que muito se recomenda a V. Exª ... Submisso, aguardo as presentes ordens de V. Exª a respeito desta majestosa e aflitiva cerimónia..."
Atirei os braços, compreendendo:
- Ah! bem! Queres ir assistir à trasladação...
Jacinto sumiu a carta no bolso.
- Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é por causa dos outros avós, que são ossos vagos, e que eu não conheci. É por causa do avô "Galeão"... Também não o conheci. Mas este 202 está cheio dele; tu estás deitado na cama dele; eu ainda uso o relógio dele. Não posso abandonar ao Silvério e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu jazigo novo. Há aqui um escrúpulo de decência, de elegância moral... Enfim, decidi. Apertei os punhos na cabeça, e gritei - vou a Tormes! E vou!... E tu vens!
Eça de Queiros, A Cidade e as Serras,
Círculo de Leitores
| Paris, Avenida dos Campos Elíseos |
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