NA PRISÃO ESCREVEM-SE CARTAS
Não, não adiantava nada. Podia escrever a protestar a minha inocência, mas isso não ia restituir-me os dezasseis anos de vida que perdi aqui, nem ia restaurar a minha pobre dignidade feita em cacos.
Na prisão escrevem-se cartas.
Primeiro cartas burocráticas, quando ainda nos julgamos senhoras da nossa cidadania, Exma Senhora Diretora, venho por este meio junto de V. Exa para pôr ao vosso critério a injustiça da minha situação...
A seguir cartas desorientadas, Exma Senhora Diretora, não sei sinceramente por que me encontro aqui, farto-me de pensar e não compreendo por que é que há de ser este o meu destino, se a Senhora Diretora...
Depois cartas desesperadas, Senhora Doutora Lurdes, minha querida Diretora, é do fundo da minha miséria que lhe venho implorar que fale com o Sr. Dr. Juiz, eu sou inocente, houve uns malvados que me prejudicaram e estão à solta, se a Doutora Lurdes pela alminha de quem lá tem...
Mais tarde cartas abjetas, minha querida Doutora Lurdes, sol desta instituição, minha verdadeira mãe, só a senhora me pode valer com a sua bondade, eu beijo o chão que a senhora pisa, era só reverem o meu processo, vão ver que estou inocente como uma criancinha acabada de nascer, tenha dó das minhas lágrimas (...).
Por fim cartas patéticas, Doutora Lurdes, minha Mãe seja ceguinha se matei aquele homem, eu não tenho força para pegar numa arma, fui sempre muito fraquinha da fome que passei em criança...
Não escrevi e não escreverei carta nenhuma, embora já tenha articulado umas tantas aqui na minha cabeça.
Apanhei vinte anos de cana e estou quase a sair desta prisão algures no interior do país, porque se completam daqui a oito meses os cinco sextos da pena, o que significa que acabo de cumprir dezasseis.
(...)
A minha situação atual no E. P. (estabelecimento prisional) é bastante diferente daquela em que vivi os oito primeiros anos de reclusão, no Pavilhão 1, visto que já levo outros oito de regime aberto.
Ultimamente trabalho nos teares, é um trabalho bonito que entretém imenso e as mãos ocupadas libertam o espírito para a minha insistente procura de memórias e eplicações que pretendo dar a mim mesma.
Rosa Lobato de Faria, Romance de Cordélia, ASA

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