domingo, 26 de julho de 2015

O VENENO DA COBRA

   Com os xuar aprendeu a deslocar-se pela floresta assentando todo o pé no chão, de olhos e ouvidos atentos a todos os murmúrios e sem deixar de fazer oscilar o machete a todo o momento. Num instante de descuido cravou-o no chão para arrumar a carga de frutos e, ao tentar pegar nele outra vez, sentiu as presas ardentes de uma víbora xis a entrar-lhe pelo pulso direito.
   Ainda chegou a ver o réptil, de um metro de comprido, a afastar-se, traçando xis no chão - é daí que lhe vem o nome - e atuou com rapidez. Saltou empunhando o machete na mesma mão atacada e cortou-o em várias postas até a nuvem de veneno lhe cobrir os olhos.
   Às apalpadelas, procurou a cabeça do réptil e, sentindo que a vista se lhe esgotava, dirigiu-se para uma aldeia xuar.
   Os indígenas viram-no chegar cambaleante. Já não podia falar, pois a língua, os membros, todo o corpo estava inchado de forma desmesurada. Parecia que ia rebentar de um momento para o outro, e conseguiu mostrar a cabeça do réptil antes de perder os sentidos.
   Despertou vários dias depois com o corpo ainda inchado e a tiritar dos pés à cabeça quando as febres o abandonavam.
   Um feiticeiro xuar devolveu-lhe a saúde num lento processo de cura.
   Beberagens de ervas aliviaram-no do veneno. Banhos de cinzas frias atenuaram-lhe as febres e os pesadelos. E uma dieta de miolos, fígados e rins de macaco permitiu-lhe andar ao fim de três semanas.
   Durante a convalescença proibiram-no de se afastar da aldeia, e as mulheres mostraram-se rigorosas com o tratamento para lavar o corpo.
   - Ainda tens o veneno lá dentro. Tens de deitar fora a maior parte e deixar só a porção que te defenderá de novas mordeduras.
   Atestavam-no de frutos sumarentos, águas de ervas e outras beberagens até o fazerem urinar quando já não tinha vontade.
   Quando o viram totalmente recomposto, os xuar aproximaram-se com presentes. Uma nova zarabatana, um feixe de dardos, um colar de pérolas do rio, um cintozinho de penas de tucano, dando-lhe palmadas até o levarem a compreender que tinha passado por uma prova de aceitação, determinada nada mais nada menos que pelo capricho de deuses brincalhões deuses menores, amiúde ocultos entre os escaravelhos ou entre os pirilampos, quando querem confundir os homens e se vestem de estrelas para indicar falsas clareiras na floresta.

Luís Sepúlveda, O velho que lia romances de amor,
 Asa Editores

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