segunda-feira, 6 de julho de 2015

CRÓNICAS DE VIAGENS

   Talvez os lugares imaginários derivem simplesmente do desejo de ver para além do horizonte. Viajantes intrépidos da Islândia, China e África partiram muito antes de Colombo para explorar os mares desconhecidos; outros, igualmente intrépidos mas menos entusiastas do ato material em si, ficaram em casa a tentar imaginar os países por descobrir. Uma história medieval fala de um nobre que foi aconselhado pelo confessor a fazer uma peregrinação a Jerusalém para se purificar dos seus pecados. Abominando a ideia de percorrer as duas mil milhas entre a sua casa e a cidade santa, o nobre calculou o perímetro em redor do seu castelo e, durante muitos anos, percorreu todos os dias esse caminho até, por fim, ter alcançado a distância necessária. "Viajar com otimismo é melhor que chegar". Escreveu Robert Louis Stevenson vários séculos mais tarde.
   A escrita de uma crónica de viagem imaginária confirma a afirmação de Stevenson. A verdadeira viagem é entravada pelos numerosos pequenos padecimentos que atacam o corpo de quem viaja e qualquer relato que tente embelezar aos olhos do leitor esses momentos desagradáveis mente tanto como um escritor de ficção.

Alberto Manguel, Gianni Guadalupi, Dicionário dos Lugares Imaginários
Lisboa, Tinta da China

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