TROVA DO EMIGRANTE
Parte de noite e não olha
os campos que vai deixar.
Todo por dentro a abanar
como a terra em Agadir
folha a folha se desfolha
seu coração ao partir.
Não tem sede de aventura
nem quis a terra distante.
A vida o fez viajante.
Se busca terras de França
é que a sorte lhe foi dura
e um homem também se cansa.
De sete avós segue os trilhos
de sete avós que partiram
e numa noite floriram
sete mulheres que murcharam
quando depois sete filhos
mais sete ausências deixaram.
Não julguem que vai contente.
Leva nos olhos o verde
dos campos onde se perde
gente que tudo lhes deu.
Parte mas fica presente,
em tudo o que não colheu.
Ficam mulheres a chorar
por aqueles que se foram.
(Ai lágrimas que se choram
não fazem qualquer mudança.)
Já foram donos do mar
vão para terras de França.
Manuel Alegre, Praça da Canção

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