quarta-feira, 3 de junho de 2015

O MILAGRE DA VIDA




   Eis-te nos teus domínios, Tomás. Com uma ranchada de filhos. Como um belo patriarca.
   Ela olhava em volta também. Depois fitou-me, cerrando um pouco os olhos, como se me investigasse:
   Tu disseste que era diferente, que vermo-nos não era vermo-nos nos outros. Quando a gente sente a sério uma coisa, julga que ninguém mais a sente. Julga-o, porque é difícil exprimir isso que sente. Tu julgas que o velho Deus e a violência estúpida da morte e o milagre da vida nunca entraram nas minhas contas. Entraram. Mas agora são como animais familiares. Durmo bem no meio deles.
   Não é possível! Tu não viste nada! Tu não viste a pessoa do nosso pai, a realidade única que ele era, que o habitava. Tu não assististe ainda à aparição de ti a ti próprio. Tu nunca pensaste a sós contigo, no silêncio: “Estou vivo, eu sou, eu, esta vitalidade iluminada que se sente, se não pensa, se toca e é estranha e arrepia de medo e nos põe os cabelos em pé.” Tu vives adormecido nesta quietude da terra e no fundo não sabes que és mortal.
   Tomás abanou longamente a cabeça.
   - Pobre Alberto. Porque não vais tu à missa? É a tua última tarefa.
   - Não se soluciona uma vida como se soluciona uma doença. Toda a verdade para a vida é uma criação: ninguém a pode ensinar. E, se a ensina e aprendemos, não damos conta disso, é ainda uma criação.
   - Um pouco assim. Já to disse há pouco. Em todo o caso, os apóstolos existem.
   - Como as trelas dos cães. Ou como a luz num pequeno quarto escuro: o que estava no quarto não se emendou.
   - Talvez, talvez – condescendeu Tomás. – Eu sou um pobre lavrador. Não tenho um stock de ideias para estas ocasiões. Mas creio que estás enganado sobre a experiência de mim próprio. Na verdade, nada disseste ainda que eu ignorasse. Às vezes ponho-me a pensar no caso dos meus filhos. Eles são seres independentes, sentem-se a si próprios sem ligações com nada, como nós nos sentimos em relação aos nossos pais. Ainda que se pareçam connosco, que tenham os nossos tiques, eles não o sabem, não o entendem. Mas eu vejo-os de mim para eles e sinto que alguma coisa de mim está neles, que alguma coisa me pertence. A minha vida é única, é um “milagre”, como tu dizes. O nada absoluto da morte atordoa. Mas eu sei que para além de mim há a vida e que a vida não morre. Sim, raras vezes vejo isso flagrantemente. Mas quando o vejo não fico cego. Abala-me um pouco, mas acabo por ficar calmo e aceitar. A morte então toma a velha imagem do sono – do sono que se apetece ao fim de um dia de trabalho.
   - Tomás! Alberto!
   - Lá vamos, lá vamos.
   O almoço foi um espetáculo tão extraordinário que jamais o esqueci. E agora que o relembro neste Inverno em que escrevo, sinto-o ainda com a resposta melhor do meu irmão Tomás a tudo quanto lhe disse.

Vergílio Ferreira, Aparição


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Paisagem do Douro

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