O MILAGRE DA VIDA
Eis-te nos teus domínios, Tomás. Com uma ranchada de
filhos. Como um belo patriarca.
Ela olhava em volta também. Depois fitou-me,
cerrando um pouco os olhos, como se me investigasse:
Tu disseste que era diferente, que vermo-nos
não era vermo-nos nos outros. Quando a gente sente a sério uma coisa, julga que
ninguém mais a sente. Julga-o, porque é difícil exprimir isso que sente. Tu
julgas que o velho Deus e a violência estúpida da morte e o milagre da vida
nunca entraram nas minhas contas. Entraram. Mas agora são como animais
familiares. Durmo bem no meio deles.
Não é possível! Tu não viste nada! Tu não
viste a pessoa do nosso pai, a realidade única que ele era, que o habitava. Tu
não assististe ainda à aparição de ti a ti próprio. Tu nunca pensaste a sós
contigo, no silêncio: “Estou vivo, eu sou, eu, esta vitalidade iluminada que se
sente, se não pensa, se toca e é estranha e arrepia de medo e nos põe os
cabelos em pé.” Tu vives adormecido nesta quietude da terra e no fundo não
sabes que és mortal.
Tomás abanou longamente a cabeça.
- Pobre Alberto. Porque não vais tu à missa?
É a tua última tarefa.
- Não se soluciona uma vida como se
soluciona uma doença. Toda a verdade para a vida é uma criação: ninguém a pode
ensinar. E, se a ensina e aprendemos, não damos conta disso, é ainda uma criação.
- Um pouco assim. Já to disse há pouco. Em
todo o caso, os apóstolos existem.
- Como as trelas dos cães. Ou como a luz num
pequeno quarto escuro: o que estava no quarto não se emendou.
- Talvez, talvez – condescendeu Tomás. – Eu sou
um pobre lavrador. Não tenho um stock
de ideias para estas ocasiões. Mas creio que estás enganado sobre a experiência
de mim próprio. Na verdade, nada disseste ainda que eu ignorasse. Às vezes ponho-me
a pensar no caso dos meus filhos. Eles são seres independentes, sentem-se a si
próprios sem ligações com nada, como nós nos sentimos em relação aos nossos
pais. Ainda que se pareçam connosco, que tenham os nossos tiques, eles não o
sabem, não o entendem. Mas eu vejo-os de mim para eles e sinto que alguma coisa
de mim está neles, que alguma coisa me pertence. A minha vida é única, é um “milagre”,
como tu dizes. O nada absoluto da morte atordoa. Mas eu sei que para além de
mim há a vida e que a vida não morre. Sim, raras vezes vejo isso
flagrantemente. Mas quando o vejo não fico cego. Abala-me um pouco, mas acabo
por ficar calmo e aceitar. A morte então toma a velha imagem do sono – do sono
que se apetece ao fim de um dia de trabalho.
- Tomás! Alberto!
- Lá vamos, lá vamos.
O almoço foi um espetáculo tão extraordinário
que jamais o esqueci. E agora que o relembro neste Inverno em que escrevo,
sinto-o ainda com a resposta melhor do meu irmão Tomás a tudo quanto lhe disse.
Vergílio Ferreira, Aparição
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