segunda-feira, 1 de junho de 2015

A MINHA OLYMPIA

   Nem vale a pena falar de computadores e processadores de texto. Numa fase inicial, ainda me senti tentado a comprar uma dessas maravilhas para mim,  mas ouvi demasiadas histórias de terror em que uma pessoa carregava no botão errado e eliminava um dia de trabalho - ou um mês de trabalho - demasiados avisos sobre súbitas falhas de energia, capazes de apagar todo um manuscrito em menos de meio segundo. Eu nunca fui bom com máquinas e sabia que, se houvesse um botão errado para carregar, acabaria por carregar nele.
   De maneira que não mais larguei a minha velha máquina de escrever e os anos 80 passaram e deram lugar aos anos 90. Um a um, todos os meus amigos mudaram para Macs e IBMs. Comecei a parecer um inimigo do progresso, o último baluarte pagão num mundo de conversos digitais. Os meus amigos gozavam comigo por eu resistir às novas tecnologias. Quando não me chamavam sovina, diziam que eu era um reacionário e teimoso que nem um burro. Entrava-me por um ouvido, saía-me pelo outro. O que era bom para eles não era necessariamente bom para mim, dizia eu. Por que raio é que eu havia de mudar se, como estava, me sentia perfeitamente feliz?
   Até então, não me sentira especialmente ligado à minha Olympia. A máquina era apenas uma ferramenta que me permitia fazer o meu trabalho, mas, agora que se tornara uma espécie em perigo, um dos últimos artefactos sobreviventes do homo scriptorus do século XX, começava a desenvolver uma certa afeição por ela. Dei-me conta de que tínhamos o mesmo passado. Gostasse ou não, essa era a pura verdade. Com o passar do tempo, acabei por compreender que tínhamos também o mesmo futuro.

Paul Auster, A História da Minha Máquina de Escrever,
 Edições Asa





Sem comentários:

Enviar um comentário