sexta-feira, 5 de junho de 2015

O PLANO

   Um plano - De facto, continuava a não dispor de um simples esboço quanto mais dum plano, mas agora começava a achar que era pernicioso não ter. O recente assalto das ideias mórbidas relacionadas com os ruídos intoleráveis resultava por certo da falta de previsão dos momentos próximos. Possivelmente estava a deixar-se conduzir pelas circunstâncias com a inocência dos jovens ou a lentidão das velhas donas, quando ele nem dispunha do tempo dos primeiros nem da desistência das segundas. E desse modo, porque esperava? Àquela hora - o Engenheiro observava o mostrador do relógio com precisão de ourives - se ele tivesse um plano já os dois poderiam estar pelo menos a olhar-se sem paredes e panos de permeio. Mas de facto não possuía um esboço sequer. Aliás, mesmo que desejasse naquele instante sair para o corredor e bater à porta, tampouco dispunha do pretexto que balbuciaria. A menos que fosse prevenir das imperfeições d'A Casa do Leborão. Isto é, poderia muito bem, como pessoa responsável que era, tomar um casaco, colocar uma gravata, bater à porta de Ana Palma, e calmamente dizer-lhe - "Estive a refletir, minha querida, e previno-a que podemos ter de abandonar esta albergaria que afinal não é de caçadores."
   Aliás, preveni-la não era um dever? Quem saberia se do outro lado ela mesma não se teria apercebido de qualquer vizinhança menos recomendável e não se encontrasse inibida? Quem poderia garantir que não estivesse a ser assaltada por dúvidas sobre a casa sem coragem para lhas transmitir? Quem saberia se não se encontrava agastada e a sofrer? E num ápice, o Engenheiro Geraldes abandonou a ideia de que deveria esperar disciplinadamente o primeiro sinal que ela lhe desse, para se arrepender de não o ter já feito. Sentia-se merecer reprimenda de si mesmo e tomava-se por culpado - O sobressalto que o atingia, contudo, não tinha qualquer fundamento, pois quando finalmente saiu para o corredor silencioso e bateu à porta exterior do quarto, Anita Starlet apareceu diante do mundo que assaltava o Engenheiro, como se acabada de chegar do Toque-de-Classe.

Lídia Jorge, A Última Dona,
Círculo de Leitores

Escritora Portuguesa


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