DENTRO DA CABEÇA
O homem tinha uma coisa dentro da cabeça e não sabia o que era. Andava na rua sem ver nada; chegava a casa e não conseguia sair do que tinha dentro da cabeça. Às vezes pensava que podia ser alguma coisa grave; mas depois voltava a pensar e via que não lhe doía a cabeça, que andava normalmente, que não tinha febre, que a vida continuava a correr como sempre tinha corrido, com a diferença de que ele não sabia o que é que tinha dentro da cabeça.
Um dia pôs-se a pensar na infância. Lembrava-se do fim do Verão e dos dias que começavam a encurtar. Começavam a aparecer nuvens que roubavam ao céu a sua pureza e os pássaros juntavam-se, logo de manhã, em enormes círculos que iam mudando de forma à medida que se afastavam, até finalmente desaparecerem sobre o mar, para sul, tirando aos campos a sua música. Mas não se lembrava de mais do que isto. Era como se a memória tivesse ido com esses bandos de pássaros e nenhuma Primavera a tivesse trazido de volta.
O homem tinha sabido muitas histórias. Sentava-se numa mesa de café, esperava que o empregado lhe trouxesse o café, com o copo de aguardente, e começava a beber, enquanto a mesa se ia enchendo à sua volta. Contava as suas histórias, uma após outra, e via os homens que o rodeavam comentarem o que ele dizia, como se fosse um profeta. Mas não queria que acreditassem nele; não precisava de ter discípulos, nem seguidores, limitava-se a contar-lhes as histórias que lhe tinham contado e precisava que os outros tomassem nota delas para, um dia, se alguém precisasse de as ouvir, as poderem repetir.
Nuno Júdice, "O Caminho dos Pássaros", in O Prazer da Leitura,
Teorema

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