domingo, 21 de junho de 2015

AS BILHAS DE GÁS E EU

   Mantenho com as bilhas de gás uma relação de amor adolescente. (...) Ao espreitar a janelinha do esquentador, vejo uma exaltante chama azul, direita, resoluta, alegre, decidida a durar eternidades. A água do duche é quente e permaneço séculos imerso naquele vapor que me aquece tanto que deito fumo por todo o corpo. De olhos fechados passeio o jato pela cabeça, o pescoço, os ombros, o peito, os braços e as pernas, disposto a ficar assim a vida inteira a ensaboar-me e a desensaboar-me, assobiando a passar as mãos lentas por uma pele feliz. Saio do chuveiro a contragosto.
   (a vida torna-se horrível longe da banheira, cheia de correntes de ar, desconforto e pessoas supérfluas)
   e regresso a ela na manhã seguinte numa voluptuosa expectativa. Este estado de graça dura quatro a cinco dias de prazer perfeito. Ao sexto dia mais ou menos a chama principia a enfraquecer, a perder firmeza e ímpeto, o azul raia-se de um amarelo outonal, é preciso acionar o isqueiro duas ou três vezes antes de a janelinha se iluminar, tenho de rodar a torneira de água fria para conseguir o que ao princípio era instantâneo e fácil, encontrar um compromisso progressivamente mais penoso no misturador porque é a altura em que a botija começa a ter caprichos incompreensíveis, hesitações, estranhas mudanças de humor em que ora me queima ora me gela (...)

António Lobo Antunes, Livro de Crónicas,
 Dom Quixote


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