O CAVALEIRO NEGRO
Entretanto
Juliano recobrara o alento; a vergonha, o despeito, a sede de vingança
estorciam-lhe o coração. O nobre ginete em que cavalgava, sentindo seu senhor
semimorto, tinha corrido espantado até onde a multidão de cristãos e árabes,
travados em peleja sanguinolenta, lho consentia. O conde, cravando-lhe os
acicates, com a espada erguida na mão, arremessou-o para o lugar onde o duque
de Córdova pelejava com Mugueiz. Era um feito covarde: mas que importava a
Juliano a desonra? Assinalado com o ferrete indelével de traidor, havia-se
habituado a viver para um sentimento único – a vingança. E a vingança era quem
o impelia.
Neste
momento, por uma das pontes já desertas lançadas na noite antecedente sobre o
Chrysus soava um correr de cavalo à rédea solta. Alguns soldados que andavam
mais perto da margem volveram para lá os olhos. Um cavaleiro de estranho aspeto
era o que assim corria. Vinha todo coberto de negro: negros o elmo, a couraça e
o saio; o próprio ginete murzelo: lança não a trazia. Pendia-lhe da direita da
sela uma grossa maça ferrada de muitas puas, espécie de clava conhecida pelo
nome de borda, e da esquerda a arma predileta dos godos, a bipena dos francos,
o destruidor franquisque. Subiu rápido a encosta donde Roderico atendia aos
sucessos da batalha. Parou um momento e, olhando para um e outro lado, endireitou
a carreira para o lugar em que flutuavam os pendões das tiufadias da Bética.
Como um rochedo pendurado sobre as ribanceiras do mar, que, estalando, rola
pelos despenhadeiros e, abrindo um abismo, se atura nas águas, assim o
cavaleiro desconhecido, rompendo por entre os godos, precipitou-se para onde
mais cerrado em redor de Teodomiro e Mugueiz fervia o pelejar.
Juliano
tinha-se aproximado no entanto do esforçado duque de Córdova, que, ferido e
obrigado a combater com o destro e feroz renegado, a custo se poderia defender
dos golpes do conde, golpes que o ódio e a cólera dirigiam. Alguns cavaleiros
da Bética voaram a socorrer Teodemiro; mas os árabes com que andavam travados
tinham-nos seguido de perto e, rodeando Mugueiz, haviam tornado inútil o socorro
dos cavaleiros cristãos. O apertado revolver das armas formava uma selva de
ferros em volta dos dois capitães inimigos, através da qual debalde o conde se
Septum buscara muitas vezes abrir caminho para ferir Teodemiro, até que
finalmente, galgando por cima de um árabe derribado, pudera vibrar um golpe. O
elmo do nobre godo restrugira, e o guerreiro vacilara. A última página da sua
vida parecia escrita no livro dos destinos. Os dois adversários do duque de Córdova
iam tingir de negro as que ainda lhe restavam em branco.
Mas
o cavaleiro desconhecido havia passado através da hoste goda e chegara à
dianteira dos árabes. Com a maça jogada às mãos ambas abolava e rompia as armas
mais bem temperadas, e as puas, entrando pelas carnes dos que se lhe punham diante,
iam esmigalhar-lhes os ossos. Por onde ele atravessava, nem as fileiras se
uniam, nem os godos achavam adversários. Como a charrua, tirada com violência
em chão batido de planície, deixa após si grossas glebas revolvidas, assim
aquela arma irresistível deixava, ao passar, uma larga cauda de cadáveres
entretecida de moribundos debatendo-se em terra. Os godos, espantados,
perguntavam uns aos outros, quem seria aquele temeroso guerreiro; mas entre
eles ninguém havia que pudesse dizê-lo. Se combatesse pelos muçulmanos, crê-lo-iam
o demónio da assolação; mas, pelejando pela Cruz, dir-se-ia que era o arcanjo
das batalhas mandado por Deus para salvar Teodemiro e, com ele, os esquadrões
da Bética.
Alexandre Herculano, Eurico, O Prebítero

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