MANHÃ NA SERRA
Manhã na serra... Ainda o Cabril está escuro. Levanta-se o sol pela hora velha, mas já os operários passaram para as fábricas da vila. Vão sempre apressados, homens e mulheres. A gente que fica também se move. Tem-se a impressão que durante o tempo quente, com os trabalhos sucessivos das regas e colheitas, ninguém aqui dorme.
A manhã vai abrindo vagarosamente. Da cumeada, lá bem ao alto de uns cabeços felpudos, mais próximos, e de outros escalvados, pesados e maciços, mais remotos, rompe o sol empoeirado. O Cabril, escuro, ainda não tem delineamento. Porém, neste outubro estiado nem as manhãs são frias, nem as névoas demoradas, nem o vento sopra, e não chove.
Até a lua, no crescente, é luminosa! Tão formoso tempo desgosta o povo.
A chuva mostra-se (anda o céu enevoado) de vez em quando, mas logo foge...
Tudo vai aquecendo mansamente e o fumo sobe direito.É tão leve a inclinação que casualmente toma que só olhando-o pertinazmente se vem a descobrir o lado do vento.
Os milhos mais serôdios ainda não foram ceifados e também não bolem. Há uma calma perfeita, e lembrarmo-nos nós de que os vendavais encanados por todas estas vertentes tortuosas chegam a derrubar as mais grossas canas de milho! (...)
Ouço a chocalhada de mais um rebanho. Desde muito cedo que eles passam. Os pastores levam-nos lentamente, paulada a este chibo, paulada àquela ovelha, paulada em vão, descansada, para que os animais aproveitem bem toda a verdura mais ou menos seca das bordas antes de assentarem no chão que vão rapar e estrumar durante um dia ou mais. (...)
Uma cantoria arrastada e graciosa, bem soante, vem da esquerda. Têm bonita voz as serranas da Estrela! É mais uma descasca do milho. E à minha direita, para meu desgosto (um desgosto mental, supérfluo), na mata destroçada da rica Artensa luzem os pinheiros finos, tombados e descascados, vendidos à companhia dos telefones, salvo erro, para postes. Na aldeia, de muitos fogos, não há nem se espera tão cedo telégrafo ou telefone! Esta rica Artensa do povo de lá tem o marido na América. Com o dinheiro americano e o serrano vão ambos fazendo um casão. Bastou-lhes terem um filho. Trataram logo dos interesses. Ele do lado d'além do mar e ela do lado aquém, governam-se satisfatoriamente.
Mas diz o Jaleca, por malandrice, e ainda outros mais, repetindo o que ouvem aos parentes americanos de torna-viagem:
Ô! Ô! É o'a vergonha dos portugueses. Poipar, sim, mas daquele modo? Ele t'chegou a andar co'os sapatos sem solas! E prò quê? Também les há de soar a hora, com'òs oitros...
Não tendo mais que apontar, de momento pelo menos, porque tudo isto sendo variado é constante, repetido, levanto a pena e fico-me a olhar para o espesso e melindroso Cabril, d'aquém névoa, d'além luz.
Irene Lisboa, Crónicas da Serra,
Editorial Presença
Editorial Presença
| Rio Zêzere, barragem do Cabril |
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