OS ALMOÇOS NO RAMALHETE
No Ramalhete, pontualmente ao meio-dia
tocava a sineta do almoço. Carlos encontrava quase sempre o avô já na sala de
jantar, acabando de percorrer algum jornal junto ao fogão, onde a tépida
suavidade daquele fim de outono não permitia acender lume, mas verdejando todo
de plantas de estufa.
Em redor, nos aparadores de carvalho
lavrado, rebrilhavam suavemente, no seu luxo maciço e sóbrio, as baixelas
antigas; pelas tapeçarias ovais dos muros apainelados corriam cenas de balada,
caçadores medievais soltando o falcão, uma dama entre pajens alimentando os
cisnes de um lago, um cavaleiro de viseira calada seguindo ao longo de um rio;
e contrastando como teto escuro de castanho entalhado, a mesa resplandecia com
as flores entre os cristais.
O «Reverendo Bonifácio», que desde que se
tornara dignitário da Igreja comia com os senhores, lá estava já majestosamente
sentado sobre a alvura nevada da toalha, à sombra de algum grande ramo. Era
ali, no aroma das rosas, que o venerável gato gostava de lamber, como seu vagar
estúpido, as sopas de leite, servidas num covilhete de Estrasburgo. Depois
agachava-se; traçava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda, e de olhos
cerrados, os bigodes tesos, todo ele uma bola entufada de pelo branco malhado de
oiro, gozava de leve uma sesta macia.
Afonso – como confessava, sorrindo e
humilhado – ia-se tornando com a velhice um gourmet
exigente; e acolhia, com uma concentração de crítico, as obras de arte do chef francês que tinham agora, um
cavalheiro de mau génio, todo bonapartista, muito parecido com o imperador, e
que se chamava M. Théodore. Os almoços no Ramalhete
eram sempre delicados e longos; depois, ao café, ficavam ainda conversando; e
passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamação,
precipitando-se sobre o relógio, se lembra do seu consultório. Bebia um cálice
de chartreuse, acendia à pressa um
charuto.
- Ao trabalho, ao trabalho! – exclamava.
E o avô, enchendo devagar o seu cachimbo,
invejava-lhe aquela ocupação, enquanto ele ficava ali a vadiar toda a manhã...
- Quando esse eterno laboratório estiver
acabado, talvez vá para lá passar um bocado, ocupar-me de química.
- E ser talvez um grande químico. O avô tem
já o feitio.
O velho sorria.
- Esta carcaça já não dá nada, filho. Está
pedindo Eternidade!
- Quer alguma coisa da Baixa, de Babilónia? –
perguntava Carlos, abotoando à pressa as suas luvas de governar.
- Bom dia de trabalho.
- Pouco provável...
Eça de Queirós, Os Maias

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