segunda-feira, 25 de abril de 2016

OS ALMOÇOS NO RAMALHETE


   No Ramalhete, pontualmente ao meio-dia tocava a sineta do almoço. Carlos encontrava quase sempre o avô já na sala de jantar, acabando de percorrer algum jornal junto ao fogão, onde a tépida suavidade daquele fim de outono não permitia acender lume, mas verdejando todo de plantas de estufa.
   Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no seu luxo maciço e sóbrio, as baixelas antigas; pelas tapeçarias ovais dos muros apainelados corriam cenas de balada, caçadores medievais soltando o falcão, uma dama entre pajens alimentando os cisnes de um lago, um cavaleiro de viseira calada seguindo ao longo de um rio; e contrastando como teto escuro de castanho entalhado, a mesa resplandecia com as flores entre os cristais.
   O «Reverendo Bonifácio», que desde que se tornara dignitário da Igreja comia com os senhores, lá estava já majestosamente sentado sobre a alvura nevada da toalha, à sombra de algum grande ramo. Era ali, no aroma das rosas, que o venerável gato gostava de lamber, como seu vagar estúpido, as sopas de leite, servidas num covilhete de Estrasburgo. Depois agachava-se; traçava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda, e de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo ele uma bola entufada de pelo branco malhado de oiro, gozava de leve uma sesta macia.
   Afonso – como confessava, sorrindo e humilhado – ia-se tornando com a velhice um gourmet exigente; e acolhia, com uma concentração de crítico, as obras de arte do chef francês que tinham agora, um cavalheiro de mau génio, todo bonapartista, muito parecido com o imperador, e que se chamava M. Théodore. Os almoços no Ramalhete eram sempre delicados e longos; depois, ao café, ficavam ainda conversando; e passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamação, precipitando-se sobre o relógio, se lembra do seu consultório. Bebia um cálice de chartreuse, acendia à pressa um charuto.
   - Ao trabalho, ao trabalho! – exclamava.
   E o avô, enchendo devagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquela ocupação, enquanto ele ficava ali a vadiar toda a manhã...
   - Quando esse eterno laboratório estiver acabado, talvez vá para lá passar um bocado, ocupar-me de química.
   - E ser talvez um grande químico. O avô tem já o feitio.
   O velho sorria.
   - Esta carcaça já não dá nada, filho. Está pedindo Eternidade!
   - Quer alguma coisa da Baixa, de Babilónia? – perguntava Carlos, abotoando à pressa as suas luvas de governar.
   - Bom dia de trabalho.
   - Pouco provável...

Eça de Queirós, Os Maias



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