segunda-feira, 7 de julho de 2025

VISITAÇÃO


Um anjo aqui desceu (terá descido?),

dizendo que o silêncio humano outrora

fazia agora parte do divino,

e o que o templo maior, rasgado o pano,

tinha passado a ser culto de nós. 


Do éter rarefeito veio a voz,

queixando-se das sombras na cidade:

que o mundo era só verde, e que o azul

só o azul do céu, com letra humana

gravada numa mesa de madeira.


Um anjo aqui desceu (há provas mais)

e aqui ficou, exausto das canseiras

de ser mediador entre dois mundos,

de ter em dois segundos que voar

e mergulhar depois em três segundos.


E aqui ficado, o anjo adormeceu,

sonhando com estações e com instantes,

aos poucos esquecendo tempos dantes

e a água densa do eterno mar.


E quando se rasgou o tempo outro

e ele acordou, refeito e bocejante, 

viu que era bom ter nome, e sede, e fome,

cinco dedos nas mãos - algum olhar.


Ana Luísa Amaral





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