A CIDADE AO LONGO DOS SÉCULOS
A cidade assume, desde sempre, um caráter religioso, uma função sagrada. A esta função sagrada, vieram porém, juntar-se outras, algumas das quais permaneceram até aos nossos dias, outras foram-se modificando ao longo dos tempos, outras ainda, substituídas.
Cercada por muralhas, ela é desde o início um local de proteção, valor a que ainda hoje está associada sobretudo quando lhe é atribuído o sentido metafórico de "mãe", significado presente na designação presente de metrópole, metro (mãe) + polis. Esta função resulta também de constituir um espaço ordenado, um cosmos, opondo-se, portanto, à Natureza, o caos, o Mundo, povoado de forças tenebrosas, incontroláveis.
A cidade tornou-se «ponto de encontro permanente», originando aquilo a que Mumford chama de «ampla hibridação biológica» e uma «mistura cultural», ultrapassando assim a «autossuficiência e o sonhador narcisismo da cultura de aldeia».
Ao longo dos séculos, e porque não dos milénios?!, a cidade tem funcionado, e funciona, como um armazém, onde se vêm reunindo e acumulando os diversos elementos que constituem a cultura, transmitidos de geração a geração, os quais vão sendo transformados, aumentando ou produzindo novas culturas.
Funcionando como um «recipiente», e contrariamente à Natureza, onde as coisas estão dispersas e fatalmente se perdem, a cidade reúne, guarda e ordena tudo, pessoas e bens, costumes e tradições, preservando e modificando para o futuro.
A cidade é, portanto, um lugar privilegiado de cultura e também de criatividade e é graças a ela que o ritmo do desenvolvimento humano se acelerou.
La Selete Loureiro, A Cidade em Autores do Primeiro Modernismo:
Pessoa, Almada e Sá-Carneiro,
Lisboa: Estampa, 1996
| Cidade de Lisboa |
Sem comentários:
Enviar um comentário